Quarta-feira, 29 Maio

A inteligência do governo federal detectou que os garimpos que ainda resistem à desocupação da TI (Terra Indígena) Yanomami, em Roraima, são mantidos com apoio de facções do crime organizado. A informação foi revelada pelo presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, em entrevista à imprensa na noite de hoje (1º).

O que o governo constatou

Facções do crime organizado com atuação na Amazônia estão ligadas à operação dos pontos de garimpo ainda ativos na TI Yanomami.

Quatro pessoas ligadas ao garimpo foram mortas pela PRF (Polícia Rodoviária Federal) em um confronto na noite de ontem (30).

Uma das pessoas que veio a óbito em uma das operações de ontem tinha um envolvimento muito forte com uma das organizações criminosas.Rodrigo Agostinho, presidente do Ibama

As forças federais já destruíram 330 pontos de garimpo ilegal na TI Yanomami desde o início da operação coordenada, em janeiro.

Foram apreendidas 20 aeronaves, grande quantidade de combustível e toneladas de minérios, sobretudo cassiterita.

Recado a governador de RR

As ministras Marina Silva (Meio Ambiente), Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Nizia Trindade (Saúde) comandaram uma comitiva interministerial que foi hoje ao território yanomami.

A visita ocorreu após um indígena ser morto e outros dois ficarem feridos em um ataque a tiros feito por garimpeiros no sábado (29).

Sonia Guajajara mandou um recado para o governador de Roraima, Antonio Denarium (PP) — político bolsonarista e pró-garimpo.

Questionada sobre leis e ações do governo de Roraima que procuram sustentar o garimpo ilegal, a ministra repreendeu o governador.

O estado não pode insistir em apoiar ou incentivar a permanência desses garimpeiros no território indígena, porque o estado não pode ter como principal atividade econômica uma atividade ilícita.Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas

É isso que Roraima precisa entender, e o governador precisa entender. Não pode fomentar atividade ilícita porque alguém vai pagar por isso. Se há ainda uma articulação, uma conivência, como o outro [repórter] falou de estar tentando legalizar, ele [governador de RR] está incentivando. Esses garimpeiros [que enfrentam as forças federais] acreditam que o governador vai poder permitir a permanência deles lá.

Não queremos derramamento de sangue. É por isso que a gente vem aqui mais uma vez para trazer essa presença do Estado brasileiro e reforçar essa atuação da operação de libertação dentro do território yanomami.

Marina Silva também sinalizou com a responsabilização dos financiadores e incentivadores do garimpo.

Nós temos uma situação em que a PF está trabalhando em duas frentes. A frente das investigações de inteligência, e essas os resultados de quem está envolvido, quem facilita, quem cria mecanismos, vai ser feito de forma isenta, sem poupar nem A, nem B.Marina Silva, ministra do Meio Ambiente.

O Estado brasileiro não vai recuar frente à criminalidade.

O Estado brasileiro não vai tolerar aqueles que de forma flagrante, de forma ilegal e de forma criminosa estão sendo recalcitrantes quanto à decisão de deixar esse território com os povos originários, para que o Estado possa cumprir o seu papel.Francisco Tadeu Alencar, secretário nacional de Segurança Pública

A palavra do presidente Lula através dos seus ministros e ministras aqui presentes é que não vamos ceder um milímetro nesse enfrentamento daqueles que desafiam a autoridade legal. Vamos reforçar a presença das polícias onde ela for necessária. Vamos reforçar a segurança daqueles que atuam no exercício das suas funções institucionais em um território que foi tão maltratado nos últimos anos.

Viagem de comitiva ministerial

Entre 75% e 80% dos garimpeiros que ocupavam a região já saíram da terra indígena, segundo Marina Silva.

A ministra Nizia Trindade (Saúde) afirmou que unidades de saúde que estavam fechadas por conta do garimpo foram reabertas.

Trindade lamentou a morte de Ilson Xiriana, indígena que atuava como agente de saúde no território yanomami. “Precisamos cuidar daqueles que cuidam”, disse ela.