A candidata ao Governo do Amazonas Professora Maria do Carmo (PL) afirmou, durante entrevista à Rede Amazônica, que o estado precisa se preparar melhor para os períodos de seca e cheia. Porém, ao ser questionada sobre a crise climática, a empresária disse que convive com esses fenômenos desde a infância e que eles fazem parte da realidade amazônica.
“Quando tem seca e cheia, a gente não está falando de crise climática”, afirmou a candidata. Na sequência, ela citou fenômenos como “tufões, furacões” e “nevasca” como exemplos do que considera uma situação de crise climática.
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A declaração, no entanto, foi rebatida por especialistas. O Portal do Alex Braga conversou com o meteorologista e pesquisador da UEA Leonardo Vergasta, que contestou diretamente a fala da candidata.
“Mudança climática no Amazonas não é furacão nem nevasca. Esses fenômenos não ocorrem aqui e não vão passar a ocorrer. A nossa mudança climática é mais silenciosa e, justamente por isso, mais perigosa: ela não chega de uma vez, chega aos poucos, e aparece exatamente onde a pergunta sugere, na temperatura, no regime de chuvas, na duração da seca e no comportamento dos rios. E já não é projeção de futuro: está medida e publicada”, afirmou o pesquisador.

O que dizem os dados
Segundo Vergasta, a mudança climática na Amazônia já é mensurável em múltiplos indicadores. Um levantamento publicado em 2025 na revista Atmosphere analisou a Amazônia Legal entre 1961 e 2020 e encontrou aumento da temperatura máxima entre +0,2 e +0,6 °C por década e da mínima entre +0,3 e +0,4 °C, chegando a mais de +0,8 °C por década no setor leste. Os dias quentes já passam de 100 por ano e as noites quentes de 120. A duração média das ondas de calor saiu de 10 a 20 dias consecutivos nos anos 1960 para 30 a 40 dias hoje.
No regime de chuvas, o noroeste da Amazônia ficou cerca de 17% mais chuvoso entre 1981 e 2017, associado a mudanças na circulação atmosférica. Já o sul teve redução de 8% a 11% da chuva anual entre 1980 e 2019, e um estudo publicado este ano na Nature Communications atribui de 52% a 72% dessa perda ao desmatamento: menos floresta significa menos evapotranspiração e menos chuva reciclada.
Pesquisas do INPE indicam que a estação seca no sudoeste da Amazônia vem se estendendo de quatro para até seis meses, com déficit hídrico superior a 150 milímetros nos períodos secos.
Rios e lagos aqueceram
A régua do Porto de Manaus tem série contínua desde 1903. As duas maiores secas de 122 anos aconteceram em 2023 e 2024: 12,70 m e 12,13 m. No outro extremo, cheias acima de 29 metros, que é a cota de emergência, ocorriam uma vez a cada 22 anos até 1969 e hoje ocorrem uma a cada três.
Até a água mudou de temperatura. Um estudo publicado na Science em 2025, com participação do Instituto Mamirauá, mostrou que a temperatura da superfície dos lagos amazônicos vem subindo 0,6 °C por década nos últimos 30 anos. Durante a seca de 2023, o Lago Tefé chegou a 41 °C — a temperatura normal é em torno de 30 °C — e metade dos lagos analisados passou de 37 °C. Foi nesse contexto que mais de 200 botos morreram em poucas semanas.

“O novo normal”
Para o pesquisador, esse é o novo normal. Um artigo publicado em 2025 na Nature usa uma expressão que resume bem o que estamos vendo: as secas de hoje são “uma janela” para um clima futuro que os autores chamam de hipertropical, mais quente e mais seco na estação seca do que qualquer coisa que a floresta amazônica tenha enfrentado.
“Ou seja, o que hoje nós chamamos de evento extremo tende a se tornar a condição habitual das próximas décadas. A consequência prática é que não dá mais para planejar olhando para a média histórica. A cidade, o transporte fluvial, a saúde, a escola e o abastecimento foram todos dimensionados para um regime de rio e de temperatura que está deixando de existir. Adaptar-se não é mais uma escolha de longo prazo, é uma necessidade do calendário atual”, afirmou Vergasta.
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Calor extremo em Manaus
O dia mais quente em Manaus em 2026 foi registrado em 1º de setembro, quando a temperatura máxima alcançou 37,6 °C, de acordo com dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). O calor extremo na capital amazonense foi impulsionado pelo chamado verão amazônico e por uma forte onda de estiagem associada ao fenômeno El Niño.
De acordo com Leonardo Vergasta, setembro é, climatologicamente, o mês mais quente de Manaus, o pico da estação seca. Com pouca nebulosidade, a radiação solar chega livremente à superfície, e sem chuva não há o resfriamento da superfície. Sobre essa base sazonal se somam três coisas neste ano: um El Niño forte e em intensificação, que reduz a formação de nuvens sobre a Amazônia e aumenta a temperatura; a ilha de calor urbana, que faz a cidade produzir o próprio calor; e a tendência de aquecimento de longo prazo, o mês de setembro em Manaus está 0,9 °C mais quente em relação a 40 anos atrás.
“Não é um fator só, é a soma deles no mesmo mês”, explicou.
A média das máximas de setembro em Manaus, pela climatologia do Inmet, é de 34,1 °C. Na segunda-feira, 14 de setembro, as três estações da cidade registraram:
- 39,4 °C na estação do LABCLIM/UEA, no Parque Dez — +5,3 °C acima da média
- 39,1 °C na estação da Prefeitura de Manaus, no Mindu — +5,0 °C
- 37,4 °C na estação do Inmet — +3,3 °C
Para se ter uma ideia do que isso significa, o critério técnico de onda de calor trabalha com desvios dessa ordem mantidos por vários dias. Não é um dia atípico isolado: é um episódio de calor extremo.
E há um segundo dado nesses números, que costuma passar despercebido. As três estações mediram o mesmo dia e deram quase 2 °C de diferença entre si. Isso não é erro de instrumento, é a ilha de calor urbana aparecendo na prática. A temperatura em Manaus depende do bairro onde você a mede: onde há mais asfalto, telhado e construção e menos árvore, ela é sistematicamente maior. Ou seja, o número que a pessoa vê no boletim pode ser bem menor do que o calor que ela está efetivamente enfrentando na rua dela.

Relação com as mudanças climáticas
Existe relação entre as altas temperaturas registradas em Manaus e as mudanças climáticas. O acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera desequilibra o balanço de energia do planeta. Esse excesso elevou a temperatura média global: 2023 fechou cerca de 1,45 °C acima do nível pré-industrial e 2024 cerca de 1,55 °C, o primeiro ano civil a ultrapassar a marca de 1,5 °C, segundo a Organização Meteorológica Mundial.
Só que esse calor não fica todo no ar. Mais de 90% do excesso de energia retido no sistema climático é absorvido pelos oceanos, e é aí que está a conexão com a Amazônia. Os oceanos são os moduladores que organizam a circulação atmosférica: é a temperatura da superfície do mar que define onde se formam as nuvens, para onde vai a umidade e onde chove. Quando o Atlântico tropical e o Pacífico aquecem, essa circulação muda e a Amazônia sente diretamente, porque a chuva que cai aqui depende da umidade que vem desses oceanos. O calor e a seca excepcionais de 2023 na Amazônia foram associados justamente a essa combinação: um El Niño no Pacífico somado ao aquecimento anômalo do Atlântico tropical.
“É por isso que não se trata de escolher entre ‘El Niño’ e ‘mudança climática’, são as duas coisas atuando juntas. O El Niño é variabilidade natural: ele existe há milhares de anos e vai continuar ocorrendo, e tende a ocorrer em uma escala de 2 a 7 anos. A mudança climática explica por que tão alto: a variabilidade natural continua existindo, mas agora oscila em torno de uma média mais elevada. É a mesma oscilação de sempre partindo de um nível mais elevado e é por isso que um El Niño atual bate recordes que um El Niño dos anos 1990 não batia”, afirmou o pesquisador.
Na Amazônia, essa tendência já está medida. O levantamento publicado em 2025 na revista Atmosphere (Luiz-Silva e colaboradores), analisando a Amazônia Legal entre 1961 e 2020, encontrou aumento da temperatura máxima entre +0,2 e +0,6 °C por década e da mínima entre +0,3 e +0,4 °C por década, chegando a mais de +0,8 °C por década no setor leste. Os dias quentes já passam de 100 por ano, crescendo acima de 15 dias por década no norte da região, e as noites quentes aumentam cerca de 11 dias por década, superando 120 noites por ano. A duração média das ondas de calor saiu de 10 a 20 dias consecutivos nos anos 1960 para 30 a 40 dias atualmente. Em Manaus, a média de setembro subiu de 27,7 °C na normal de 1961–1990 para 28,6 °C na de 1991–2020. Há ainda um componente que é nosso e que agrava tudo isso: o desmatamento. Menos floresta significa menos evapotranspiração e menos chuva reciclada, o que realimenta o aquecimento regional.

Emergência climática
A declaração de Maria do Carmo ocorre em um momento em que órgãos públicos vêm adotando medidas preventivas diante das projeções climáticas para a região.
Em junho de 2026, o Governo do Amazonas publicou decreto declarando, de forma preventiva, Estado de Emergência Climática e Ambiental. O documento cita projeções relacionadas ao El Niño e aponta riscos de redução das chuvas, estiagem, incêndios florestais, ondas de calor e redução da disponibilidade hídrica.
O decreto também determina ações de monitoramento, prevenção, mitigação e preparação para eventos climáticos extremos.

