Moradores do município de Anamã, no interior do Amazonas, denunciam que a água distribuída nas residências voltou a apresentar problemas de qualidade, chegando às torneiras com coloração barrenta, odor metálico e presença de sedimentos. A reclamação ocorre após o Governo do Amazonas anunciar, desde 2019, investimentos milionários no Projeto Água Boa, criado para ampliar o acesso à água potável nas comunidades do interior.
O projeto foi lançado pelo então governador Wilson Lima (União Brasil) em novembro de 2019, com investimento anunciado de R$ 8 milhões para a aquisição de 400 sistemas de tratamento de água por meio do programa inicialmente chamado “Cosama na Comunidade”. A proposta era levar tecnologia de tratamento para comunidades onde a população enfrentava dificuldades de acesso à água própria para consumo.
Na época, o governo informou que os equipamentos utilizariam a tecnologia Yguatú, com capacidade para atender centenas de pessoas diariamente, eliminando impurezas e garantindo água dentro dos padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
O Água Boa continuou sendo ampliado nas gestões seguintes e permanece como uma das ações de abastecimento de água do Governo do Amazonas durante a atual administração do governador Roberto Cidade (União Brasil).
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Apesar dos anúncios de expansão, moradores de Anamã afirmam que a realidade enfrentada pela população ainda é diferente da promessa de água tratada.
“Essa é a água que chega nas nossas casas. Isso é inadmissível. Nós, moradores, vamos lutar pelo nosso direito à água potável, pois isso está na Constituição Federal. Temos direito à saúde, e beber essa água prejudica nossa saúde. Não adianta colocar a culpa na natureza”, afirmou uma moradora.
Segundo a comunidade, o problema tem afetado atividades básicas do cotidiano, como cozinhar, lavar roupas e higienizar utensílios. Os moradores afirmam que já registraram uma reclamação na Ouvidoria Nacional e organizam um abaixo-assinado para pedir a intervenção do Ministério Público do Amazonas (MPAM).
Anamã recebeu sistemas do Água Boa em 2022
A situação chama atenção porque Anamã já foi incluída nas ações divulgadas oficialmente pelo Governo do Amazonas como beneficiária do Projeto Água Boa.
Em maio de 2022, durante a Operação Enchente, a Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama) informou a instalação de três sistemas simplificados do Projeto Água Boa no município.
Segundo a própria Cosama, a medida tinha como objetivo reduzir os impactos da enchente e garantir água tratada à população durante o período de cheia.
Na ocasião, o governo informou que um termo de cooperação técnica foi assinado entre o governador Wilson Lima, a Cosama e a Prefeitura de Anamã para atuação no abastecimento do município. A companhia afirmou que a ação beneficiaria cerca de 14 mil moradores.
O então presidente da Cosama, Armando do Valle, declarou que a missão era “proporcionar água tratada à população com a instalação do projeto Água Boa e executar operações emergenciais para que a enchente não prejudique o fornecimento de água”.
Investimentos continuam, mas valores detalhados por município não são divulgados
Em agosto de 2024, o Governo do Amazonas anunciou um novo convênio de R$ 4,9 milhões para implantação de sistemas simplificados alternativos de coleta e tratamento de água em 25 comunidades rurais de 12 municípios.
Entre as localidades listadas estavam duas comunidades de Anamã: Novo Brasil e Ilha Aranatuba.
Segundo o governo, o Projeto Água Boa já havia alcançado 549 sistemas instalados em 52 municípios, beneficiando mais de 160 mil pessoas.
Apesar dos anúncios gerais, os dados públicos disponíveis não apresentam, de forma detalhada, quanto foi investido especificamente em Anamã desde a implantação dos sistemas.
Onde está o dinheiro do Água Boa?
O Projeto Água Boa não aparece necessariamente como um programa orçamentário único com esse nome nas consultas gerais do Estado. Isso ocorre porque a execução da iniciativa envolve diferentes órgãos e ações administrativas, com recursos distribuídos entre estruturas como a Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), Defesa Civil e outras áreas do governo.
Por isso, não foi possível identificar o valor total aplicado no programa e quanto foi destinado especificamente a Anamã.
NOTA
O Núcleo de Reportagem Investigativa do Portal Alex Braga entrou em contato com a Cosama para falar sobre o caso, mas até a publicação desta matéria não obtivemos respostas. O espaço segue aberto para esclarecimentos.
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