Domingo, 31 Maio

O uso de bingos e sorteios promovidos por prefeituras do interior do Amazonas tem se tornado cada vez mais frequente em festas comemorativas e eventos públicos. Sob o discurso de homenagens à população, prefeitos passaram a apostar em sorteios de motos, carros e eletrodomésticos, e até mesmo dinheiro, como forma de atrair multidões e fortalecer a própria imagem política, principalmente em período pré-eleitoral.

O Núcleo de Jornalismo Investigativo do Portal Alex Braga (PAB) identificou uma sequência de casos em municípios amazonenses onde os eventos públicos ganharam forte conotação de promoção pessoal de gestores municipais. Em alguns episódios, os sorteios já chamaram atenção do Ministério Público do Amazonas (MPAM) e levantaram debates sobre legalidade, moralidade administrativa e possível uso da máquina pública para fortalecimento político.

Caso Anori: MPAM pede suspensão de bingo milionário

O caso mais recente ocorreu em Anori, onde o prefeito Régis Nazaré anunciou um grande bingo com premiação superior a R$ 100 mil.

A programação previa o sorteio de dez motocicletas e outros itens durante evento marcado para acontecer no Ginásio Rui Oliveira. Entretanto, o Ministério Público do Amazonas ingressou com pedido de suspensão da atividade após identificar indícios de irregularidades.

Bingo promovido pela prefeitura de Anori. Foto: Reprodução

Segundo o MPAM, o bingo pode configurar contravenção penal, conforme prevê o artigo 50 do Decreto-Lei nº 3.688/41. O órgão também apontou possível violação aos princípios da legalidade e impessoalidade previstos no artigo 37 da Constituição Federal, já que não havia lei municipal autorizando a distribuição das premiações.

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De acordo com o promotor Bruno Batista da Silva, desde o dia 14 deste mês o Ministério Público vinha tentando obter esclarecimentos junto à prefeitura, mas recebeu respostas consideradas evasivas.

Outro ponto destacado pela investigação foi a presença do nome e da imagem do prefeito nos materiais de divulgação do evento. Conforme apuração do MPAM, os vídeos promoviam diretamente a figura de Régis Nazaré, o que pode caracterizar promoção pessoal utilizando estrutura pública.

A decisão judicial assinada pelo juiz Edson Rosas Neto determinou a suspensão do bingo e fixou multa de R$ 100 mil em caso de descumprimento. O valor poderá recair pessoalmente sobre o chefe do Executivo municipal.

Parintins: carro zero e debate político

Outro episódio que gerou repercussão aconteceu em Parintins. Durante a “Festa do Dia das Mães”, realizada no Bumbódromo, o prefeito Matheus Assayag promoveu um sorteio com premiações de grande porte.

Entre os brindes anunciados estavam um carro zero quilômetro, duas motocicletas modelo Biz, eletrodomésticos e diversos outros prêmios.

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Embora o evento tenha sido apresentado como homenagem às mães do município, a iniciativa passou a ser discutida nos bastidores políticos pelo forte apelo popular em um ano eleitoral, período em que ações promocionais realizadas por agentes públicos costumam ser observadas com mais rigor pela Justiça Eleitoral e órgãos de fiscalização.

Sorteio do Dia das Mães em Parintins. Foto: Reprodução

Urucurituba: “Super Bingo de Aniversário do Prefeito”

As denúncias envolvendo bingos não se limitam às datas comemorativas. Em Urucurituba, a redação do Portal Alex Braga (PAB) recebeu informações sobre um evento promovido diretamente em homenagem ao próprio prefeito.

O chamado “Super Bingo de Aniversário do Prefeito Leôncio”, realizado em dezembro de 2025, sorteou uma motocicleta avaliada em aproximadamente R$ 19 mil.

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O caso chamou atenção justamente pelo caráter explícito de personalização do evento público, transformando a celebração do aniversário do gestor em uma ação de grande mobilização popular. Olha como o bingo veio impresso:

PAB recebeu denúncia de um morador de Urucurituba. Foto: Reprodução

Especialista aponta afronta à moralidade pública

Na época da repercussão envolvendo o bingo de Parintins, o Núcleo de Jornalismo Investigativo do Portal Alex Braga entrevistou o advogado e cientista político Helso Ribeiro, que classificou esse tipo de prática como questionável do ponto de vista ético e administrativo.

“Eu custo a crer que uma medida dessa receba aplausos de pessoas sensatas. Quem ganha o carro vai adorar, né? E eu custo a crer que tenha respaldo legal para isso. Vejo como uma medida, inclusive, que afronta a própria legislação na questão da moralidade, que é um dos pilares da administração pública”, afirmou.

O especialista também destacou que, apesar do forte apelo popular, ações desse tipo acabam dividindo opiniões justamente por misturarem eventos públicos, distribuição de prêmios e exposição política de gestores.

Cresce fiscalização de sorteios promovidos por prefeituras

Com a aproximação do período eleitoral, cresce também a atenção de órgãos de controle sobre ações realizadas por administrações municipais que possam caracterizar promoção pessoal, uso indevido da máquina pública ou captação de apoio político por meio de benefícios e premiações.

Enquanto prefeitos defendem os eventos como iniciativas sociais e comemorativas, especialistas alertam que a repetição dessas práticas pode transformar festas populares em instrumentos de marketing político financiados direta ou indiretamente pelo poder público.