Quarta-feira, 4 Março

A dor da biomédica Geovana Matos, mais uma vez, se repete. Depois de perder, o pai, Geovane Rocha, 53, e ver a tia, Sandra Helena, 55, sofrer por meses sem atendimento adequado. Ela volta a acionar o Estado na Justiça, desta vez por suposta negligência no tratamento da avó, Lourdes Monteiro, 78 anos, que morreu no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, em Manaus.

Segundo a neta, Lourdes Monteiro tinha diabetes e hipertensão. Era uma idosa lúcida e estava bem até dar entrada, no dia 29 de janeiro, no Hospital 28 de Agosto, para tratar uma lesão no dedão do pé, decorrente da diabetes.

De acordo com a familiar, os médicos solicitaram dois procedimentos: uma arteriografia e uma angioplastia, para avaliar a necessidade de amputação de parte da perna. Como a família possuía convênio, os exames foram realizados no Hospital Santo Alberto, também em Manaus.

Após os procedimentos, a idosa foi transferida de volta para o 28 de Agosto, com suporte de oxigênio. Segundo a família, a justificativa médica teria sido uma queda de pressão. A neta relata que, após a retirada do oxigênio, Lourdes já não apresentava o mesmo nível de consciência e lucidez e passou a desconfiar de um possível Acidente Vascular Cerebral (AVC).

” Quando ela acordou, ela já estava paralisada, assim. Falava enrolado, o olhar era meio perdido. Então eu notei alguma coisa diferente, né? Só que os médicos falavam que estava tudo normal, que ela estava normal. E como eram plantonistas lá no 28, então todos eram médicos diferentes. Parece que eles não liam o prontuário, não sabem o que a pessoa tem, então a gente tinha que explicar tudo de novo. ” relatou Geovana.

A neta questionou os médicos sobre o quadro, mas a equipe insistia em afirmar que Lourdes, por ser idosa, já não reagia da mesma forma.

“Ela esquecia tudo. A TC e a ressonância eu pedi porque os médicos nem exames faziam, a não ser que estivéssemos implorando. Ela não lembrava nem meu nome, era como se ela estivesse com uma confusão mental, assim, desorientada, entendeu? Então eu notei tudo isso, eu disse, não, tem alguma coisa errada. Eu falei, pede uma TC aí, uma tomografia. Aí enrolaram, acho que um dia todinho pra fazer essa tomografia. Aí vieram dizer que a tomografia estava normal. Pelo menos foi o que a médica me falou. Eu não vi o exame, eu pedi pra ver e falaram que estava no prontuário, que não sei o quê, que tinha que pegar não sei aonde, que só depois que dá alta.”


Logo depois, o médico vascular realizou uma raspagem no dedo da idosa e afirmou não haver necessidade de amputação. Após o procedimento, Lourdes recebeu alta, mas a família se recusou a deixar a unidade, alegando que ela estava desorientada e não conseguia se movimentar. Geovana afirma que pediu uma ressonância magnética, porém, houve demora na realização do exame e na entrega do resultado.

Lourdes ficou quatro dias internada no Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto e faleceu no dia 9 de fevereiro . Segundo o prontuário, a realização da arteriografia, causou o Acidente Vascular (AVC). E devido a demora no diagnóstico e na realização dos exames, não havia mais possibilidade de tratamento.

No prontuário médico, a equipe de enfermagem também registrou que, às 13h do dia 9 de fevereiro, Geovana, teria se dirigido ao balcão “de forma agressiva”, aos gritos, afirmando que Lourdes não estava sendo assistida. O documento informa ainda que, após o episódio, o plantonista foi comunicado para reavaliar a paciente e que, às 14h15, ela foi encaminhada para realização de tomografia e, posteriormente, direcionada à sala de emergência.

Não é a primeira vez que Geovana e sua família sofrem com o abandono no Hospital 28 de Agosto.

Pai morreu de Covid sem atendimento

A biomédica relembra o que aconteceu com o pai, Geovane Rocha, 53 anos, que ficou doente em 2020, com sintomas de Covid-19. Geovane também foi internado no 28 de Agosto, com o pulmão comprometido, com diagnóstico de H1N1 e pneumonia bacteriana. Após quatro dias de internação, recebeu alta, sem a realização de um teste de Covid-19 no prontuário.

A filha tentou transferi-lo para o Hospital Nilton Lins, mas ele foi barrado na porta, por falta de vaga. Depois, foi levado para o Delphina Aziz, mas Geovane não foi atendido a tempo e acabou morrendo.

Geovana, entrou com uma ação contra o Governo do Amazonas, na época, já comandado pelo Governador Wilson Lima, alegando omissão e descaso no atendimento, o que teria contribuído para a morte do pai.

Em duas instâncias a família obteve a vitória judicial, com condenação do Estado ao pagamento de R$ 150 mil de indenização, o governo tentou recorrer para evitar o pagamento desse valor, mas o juiz manteve a decisão.

Leia mais: Biomédica processa Governo do AM após pai morrer de Covid sem atendimento: ‘corruptos’

Tia também sofreu com a falta de atendimento adequado

Sandra Helena Rocha, 53 anos, diagnosticada com esquizofrenia, foi internada em Abril de 2025, e precisou passar por duas cirurgias: uma fratura na bacia e outra na perna, que foram feitas depois de vários dias de espera, devido as péssimas condições do Hospital 28 de Agosto. Mesmo sem conseguir sentar, nem andar e com fortes dores no corpo, a idosa recebeu alta.

Sandra residia em Manacapuru, e segundo a família, o hospital se recusou a fornecer uma ambulância para transportar a idosa, mesmo sabendo que ela não tinha condições de ser transportada em um veículo comum.

Na época, a família afirmou que, após a alta, a condição da tia só piorou. As pernas da idosa começaram a apresentar feridas graves, que evoluíram para um quadro de necrose. Além disso, a família suspeitou que Sandra estivesse com trombose e descobriu logo depois, um diagnóstico de diabetes que até então não havia sido identificado pela equipe médica.

A família informou que, após todo o sofrimento enfrentado, Sandra perdeu a capacidade de andar e hoje depende de uma cadeira de rodas para se locomover. Ela continua morando em Manacapuru, mas segue sem acompanhamento médico.

Leia mais:

Três meses de descaso no 28 de Agosto: paciente desenvolve necrose e teme pelo pior

Hospital 28 de Agosto libera paciente operada que não consegue sentar e nega ambulância

Três familiares de Geovana passaram pela mesma unidade: dois perderam a vida e uma sobreviveu após muito sofrimento. Porém, esses casos não devem tratados como coincidência. Ainda mais, quando se trata da atual gestão da rede estadual de saúde, sob responsabilidade do Governador Wilson Lima.

A biomédica defende que a situação da saúde pública no estado tem se agravado e cobra providências das autoridades para que outros pacientes não enfrentem o mesmo desfecho.

A família pede justiça e maior responsabilidade por parte do Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto. Segundo os parentes, a demora da equipe médica na realização de exames teria levado a um diagnóstico tardio, o que teria comprometido a possibilidade de tratamento adequado para Lourdes.

NOTA

O Núcleo de Reportagem Investigativa do Portal Alex Braga entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM), mas até a publicação desta matéria não obtivemos respostas. O espaço segue aberto para esclarecimentos.