A inauguração da ponte da Rua Trípoli, no bairro Planalto, zona centro-oeste de Manaus, reacendeu o debate sobre os custos e a execução do Programa Estadual de Construção de Pontes Urbanas. A obra foi entregue em junho de 2026 pelo governador Roberto Cidade (União Brasil), mas integra um contrato firmado ainda em 2022, durante a gestão do então governador Wilson Lima (União Brasil), que previa a construção de 50 pontes em concreto armado na capital amazonense.

O programa nasceu sob a marca “+Pontes” e foi anunciado como uma solução para melhorar a mobilidade urbana em bairros separados por igarapés. À época, o Governo do Amazonas informou que as 50 estruturas seriam construídas em 16 bairros da cidade, com previsão inicial de conclusão até 2024.
Quatro anos depois do lançamento e quase três anos após o início da execução do contrato, a primeira ponte do programa foi oficialmente inaugurada.




CONTRATO DE R$ 70,4 MILHÕES
Os dados oficiais do contrato CT-00072/2022-SEINFRA mostram que a obra foi contratada junto à Construtora ETAM Ltda., inscrita no CNPJ 22.768.840/0001-31.
O contrato tem valor global de R$ 70.409.245,39 e possui como objeto a “Construção de 50 pontes em concreto armado para integração do sistema viário e melhoria da mobilidade no Município de Manaus/AM”.





Inicialmente, o prazo de execução era de 750 dias. No entanto, ao longo dos anos foram registrados sucessivos aditivos contratuais, em julho de 2024, agosto de 2025, abril de 2026 e junho de 2026. Atualmente, a vigência do contrato foi estendida até março de 2027.




Segundo o Mapa Vivo de Obras do Governo do Amazonas, o contrato permanece em andamento e registra execução física de apenas 14,57%.
Os dados também apontam que foram medidos R$ 11.074.117,54 em serviços executados até o momento.
EMPRESA CONTRATADA TAMBÉM FOI CITADA EM INVESTIGAÇÃO DA POLÍCIA FEDERAL
Além do contrato de R$ 70,4 milhões firmado para a construção das 50 pontes em Manaus, a Construtora ETAM Ltda., responsável pela execução do programa estadual, também foi citada em relatórios da Polícia Federal no âmbito da Operação Ptolomeu, investigação que apurou suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos no Acre.

Segundo relatórios da investigação, a empresa foi mencionada em análises da PF relacionadas a vínculos societários e movimentações financeiras envolvendo integrantes da família do governador do Acre, Gladson Camelí (PP). Os documentos apontam que a composição societária da construtora inclui Eládio Messias Cameli, com 80% das quotas, além de Gledson de Lima Cameli e Eládio Messias Cameli Junior, com 10% cada.
Os relatórios da Polícia Federal também mencionam movimentações financeiras relacionadas ao pagamento de um apartamento de luxo atribuído ao governador acreano em São Paulo. Conforme os documentos da investigação, a ETAM teria assumido parcelas do imóvel e posteriormente realizado a quitação de aproximadamente R$ 3,9 milhões após a deflagração da primeira fase da Operação Ptolomeu, em dezembro de 2021.
A citação da empresa em uma investigação da PF não significa, por si só, condenação ou comprovação de irregularidades relacionadas ao contrato das pontes em Manaus. Até o momento, não há informação pública de que a investigação tenha relação com a execução do Programa Estadual de Construção de Pontes Urbanas no Amazonas.
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O VALOR DE R$ 3 MILHÕES
Durante a inauguração da ponte da Rua Trípoli, o governador Roberto Cidade foi questionado pela jornalista Karol Maia, da TV A Crítica, sobre o custo da estrutura.
Na resposta, afirmou: “Uma ponte dessa custa entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões. O pacote geral é de R$ 70 milhões para construção de 50 pontes, mas nós vamos estar entregando 150.”
A declaração gerou questionamentos nas redes sociais.
Isso porque os números do próprio contrato indicam um cenário diferente. Se o valor global de R$ 70.409.245,39 fosse dividido igualmente entre as 50 pontes previstas originalmente, o custo médio seria de aproximadamente R$ 1.408.184,91 por unidade.
Trata-se apenas de uma média matemática, já que algumas estruturas podem custar mais e outras menos, dependendo do tamanho, fundação e características do terreno. Ainda assim, o valor citado pelo governador, entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões por ponte, é significativamente superior à média estimada a partir do contrato.
Até o momento, não foi localizado documento público que demonstre qual teria sido o custo específico da ponte da Rua Trípoli.
FALTA DE DETALHAMENTO
Outro ponto que chama atenção é a ausência de informações públicas detalhadas sobre cada uma das 50 pontes.
Embora o Governo do Amazonas tenha divulgado em 2022 que as obras seriam distribuídas por 16 bairros da cidade, divididos entre as zonas centro-oeste, centro-sul, leste, norte e oeste, os documentos atualmente disponíveis apresentam apenas o contrato global.

No Mapa Vivo de Obras, o empreendimento aparece como um único projeto de 10.742,5 metros quadrados, sem discriminar claramente:
- o valor individual de cada ponte;
- a localização completa das 50 estruturas;
- o cronograma atualizado de entregas;
- o percentual executado por ponte.
A falta dessas informações dificulta o acompanhamento da execução do programa pela população e impede a verificação independente dos custos de cada intervenção.
PRAZO INICIAL ERA 2024

Quando o programa foi lançado, o Governo do Amazonas informou que as primeiras pontes seriam entregues no primeiro semestre de 2023 e que as 50 estruturas estariam concluídas até 2024.
Entretanto, em junho de 2026, a gestão estadual comemorou a entrega da primeira ponte oficialmente inaugurada dentro do programa.
Enquanto isso, o contrato segue em vigor até 2027 e ainda possui mais de R$ 60 milhões em serviços a serem executados, segundo os dados oficiais.
REAÇÃO NAS REDES
A declaração do governador sobre o custo das pontes repercutiu entre internautas.
Entre os comentários publicados nas redes sociais, usuários questionaram a compatibilidade entre os valores divulgados e os dados do contrato.
“Esses caras acham que somos otários”, escreveu um internauta.

Outro usuário afirmou: “O governador está certo no valor da ponte. Só esqueceu de falar que R$ 1 milhão é para a obra.”

“Essa ponte foi construída a dois anos atrás, agora vieram só maquiar com sinalização que já estava apagada, não taparam nem o buraco que está logo após a saída da ponte”, disse outro.

As manifestações refletem a insatisfação de parte da população com a demora na execução do programa e com a falta de informações detalhadas sobre os custos individuais das obras.
NOTA
O Núcleo de Reportagem Investigativa do Portal Alex Braga entrou em contato com a Seinfra e com a empresa contrata para falar sobre as obras, mas até a publicação desta matéria não obtivemos respostas. O espaço segue aberto para esclarecimentos.


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