Quarta-feira, 13 Maio

O que deveria ser o momento mais esperado da vida de Bianca Costa, 30 anos, acabou se transformando em uma sequência de dor, perdas e desespero. Em um relato publicado nas redes sociais, a estudante denuncia falhas graves no atendimento recebido na Maternidade Instituto da Mulher Dona Lindu, em Manaus, durante a gestão do governador Wilson Lima (União Brasil). Ela afirma que deu entrada na unidade com uma gestação desejada e acompanhada, mas deixou o hospital sem a filha e enfrentando complicações que teriam colocado sua própria vida em risco.

O caso teria ocorrido em novembro do ano passado, mas ganhou repercussão nesta terça-feira (12), após a publicação de uma carta aberta nas redes sociais.

“Eu não tenho filhos. Essa era minha terceira gestação. Tenho um problema que me fez perder dois bebês. Depois das duas perdas, fiz todo o tratamento para engravidar e ter uma gestação segura. Estava sendo acompanhada de perto pela médica do pré-natal e tudo estava normal, inclusive minha filha não apresentava nenhum problema de saúde. Ela era muito esperada por mim e por todos que me cercam. Dessa vez, não tinha como dar errado. Mas o pior aconteceu no centro cirúrgico. Eles tinham a vida dela na palma da mão e, por falta de técnica, causaram um dano fatal”, relatou.

O início do quadro

Bianca afirma que estava no sexto mês de gestação quando começou a apresentar sinais de alerta, como perda de líquido amniótico e suspeita de presença de mecônio, condição que pode indicar sofrimento fetal. Segundo seu relato, mesmo diante da gravidade do quadro, a realização de uma cesariana de emergência teria levado mais de 12 horas.

Nesse período, ela diz que permaneceu aguardando vaga em UTI neonatal e estrutura adequada para o parto, enquanto sentia dores intensas e contrações, além da angústia diante da incerteza sobre o estado da bebê.

A cirurgia teria ocorrido apenas no período da noite. Bianca afirma que a criança nasceu sem sinais vitais e sem choro. Em seu relato, ela descreve o momento como devastador e diz que não compreendeu imediatamente o que havia ocorrido na sala cirúrgica. Segundo ela, a equipe médica informou inicialmente que a causa teria sido uma parada cardíaca, versão que ela contesta.

“Disseram que foi parada cardíaca. Mas quando meu marido viu o corpo dela, o pescoço estava roxo, inchado… parecia quebrado. Ela não morreu de parada, como falaram”, afirmou.

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Complicações após o parto

Três dias após receber alta, Bianca relata que passou a apresentar febre, dores intensas e dificuldade de locomoção. Ela buscou atendimento em outro hospital, onde foi diagnosticada com infecção bacteriana grave e necrose abdominal. O quadro teria exigido laparotomia de urgência e outras cirurgias para retirada de tecidos necrosados.

“Meu corpo estava tomado por infecção. Eu tinha acabado de enterrar minha filha e depois descobri que também estava lutando pela minha vida. Eu sentia dores, não conseguia sentar nem respirar. Quando cheguei a um hospital particular, descobri que estava com uma infecção grave”, disse.

Impacto emocional

Bianca afirma que as consequências não foram apenas físicas. Segundo ela, a perda da filha e as complicações médicas deixaram marcas profundas, e atualmente vive sob uso de medicamentos e acompanhamento psicológico.

“Eu estou viva por milagre. Vivo à base de remédios e em acompanhamento psicológico. Perdi minha filha e quase perdi minha vida”, relatou.

A denúncia também levanta questionamentos sobre a estrutura da maternidade e a condução de atendimentos em situações de alto risco. Bianca afirma acreditar que outras mulheres possam ter passado por experiências semelhantes na mesma unidade, o que, segundo ela, reforça a necessidade de investigação sobre possíveis falhas no sistema.

Denúncias e críticas à gestão da saúde

O drama vivido por Bianca Costa não surge como um caso isolado. A denúncia se soma a uma longa série de problemas já expostos pelo Portal Alex Braga sobre a situação da saúde pública do Amazonas durante a gestão do governador Wilson Lima. Meses antes da tragédia enfrentada pela estudante, o Portal já havia divulgado denúncias do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam) sobre o cenário crítico no Complexo Hospitalar Zona Sul, que reúne o Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto e o Instituto da Mulher Dona Lindu, exatamente a unidade onde Bianca foi atendida.

Na ocasião, o Simeam acusou o governo estadual de promover uma “propaganda enganosa” ao divulgar peças institucionais que vendiam uma imagem de modernização e eficiência da rede pública, enquanto médicos e pacientes conviviam diariamente com precariedade, falta de estrutura e irregularidades consideradas graves.

Segundo o sindicato, relatórios do Conselho Regional de Medicina do Amazonas (Cremam) já apontavam problemas persistentes nas unidades hospitalares, mesmo após sucessivas promessas de melhorias por parte do governo. Entre as irregularidades denunciadas estavam a atuação de médicos sem Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em setores críticos, como UTIs e centros cirúrgicos, ausência de escalas oficiais de plantão, falta de diretores técnicos devidamente registrados e a atuação de empresas terceirizadas sem regularização junto ao conselho profissional.

Os documentos também apontavam deficiência na fiscalização das unidades e pendências administrativas que permaneciam sem solução dentro dos prazos legais. Para o Simeam, o cenário representava risco direto à vida dos pacientes e evidenciava um “desrespeito à vida humana” dentro de hospitais que deveriam funcionar como referência no atendimento de alta complexidade no Amazonas.

Além das denúncias feitas por profissionais da saúde, pacientes e acompanhantes também relataram condições precárias no Hospital 28 de Agosto, com denúncias de sujeira, equipamentos danificados, elevadores quebrados, macas deterioradas e problemas na alimentação fornecida aos internados.

Nota

O Núcleo de Reportagem Investigativa do Portal Alex Braga entrou em contato com a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) para obter posicionamento sobre o caso, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

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