As Eleições de 2026 no Amazonas foram marcadas pela derrota de diversos nomes tradicionais da política no resultado das urnas. Políticos que tentaram a reeleição ou deixaram seus mandatos para disputar outros cargos acabaram ficando de fora, surpreendendo o cenário político estadual.
Wilson Lima, Capitão Alberto Neto, Tadeu de Souza, Silas Câmara, Átila Lins, Emanoel Pinheiro e Luana Ferraz estão entre os políticos citados nesse cenário de candidaturas que não alcançaram os objetivos eleitorais pretendidos.
Alguns desses nomes pertencem a famílias com tradição na política amazonense. Outros tiveram suas trajetórias marcadas por polêmicas e questionamentos relacionados à atuação pública. O resultado levanta uma discussão sobre os fatores que podem contribuir para a renovação dos quadros políticos e os limites da influência construída ao longo de anos de vida pública.
Número de candidatos
O Amazonas registrou, nas Eleições de 2026, o menor número de candidatos do século XXI. Ao todo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recebeu 461 inscrições no estado. A última vez que o número de postulantes foi tão baixo ocorreu em 1998, quando 368 candidatos disputaram os cargos disponíveis no pleito geral.
Entre os partidos, o Partido Liberal (PL) lidera em número de candidaturas, com 38 inscritos. Na sequência, aparecem o Partido Social Democrático (PSD) e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), com 36 candidatos cada. Podemos e Avante registraram 34 inscrições, enquanto Republicanos e Novo contabilizaram 33 cada. Já União Brasil e Partido Democrático Trabalhista (PDT) tiveram 32 candidatos cada.
No caso das federações partidárias, a União Progressista (União Brasil e Progressistas) aparece com 38 candidatos. A federação PSOL-Rede contabilizou 33 inscrições, enquanto a aliança formada por PT, PCdoB e PV registrou 21 candidaturas.
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Opinião do especialista
Para compreender esse cenário, o Núcleo de Jornalismo Investigativo do Portal do Alex Braga (PAB) conversou com o cientista político Helso Ribeiro. Na avaliação do especialista, o resultado eleitoral pode ser explicado por uma combinação de fatores, entre eles o poder econômico, a organização partidária, as transformações na comunicação política e o desgaste natural de lideranças tradicionais.

ANÁLISE
Ao analisar os fatores que influenciam o desempenho eleitoral, Helso Ribeiro destacou o peso das estruturas partidárias e dos recursos financeiros na construção de candidaturas competitivas. Para o cientista político, lideranças que concentram influência dentro dos partidos podem contribuir para impulsionar novos candidatos e favorecer projetos políticos específicos.
“São múltiplos os fatores. Eu acredito que uma estrutura política alicerçada em cima de chefes partidários ajuda muito. O sujeito é o dono de um partido. Quando eu falo dono de um partido político junto com apoio econômico pesado, ele consegue alavancar novas candidaturas e, às vezes, fazer com que permaneçam alguns que têm interesse”, afirmou.
Segundo Helso, a influência dos recursos financeiros não se limita ao Amazonas. O fenômeno também pode ser observado em outras regiões do Brasil e em diferentes países, onde o financiamento e a capacidade de mobilização contribuem para ampliar o alcance das campanhas.
O especialista ressaltou que o poder econômico pode facilitar o acesso a redes de apoio, ampliar a presença nas redes sociais e fortalecer a articulação partidária. Entretanto, a existência dessas estruturas não significa que uma candidatura tenha o resultado garantido nas urnas.
Nesse contexto, o desempenho eleitoral depende de uma combinação de fatores que envolve a organização política, a capacidade de comunicação com os eleitores e a manutenção de vínculos com a população.

Redes sociais
A internet também transformou a maneira como os candidatos se apresentam ao eleitorado. Se antes a presença política estava mais associada às estruturas partidárias tradicionais, ao tempo de televisão e às articulações presenciais, atualmente as plataformas digitais ampliaram as possibilidades de comunicação.
Para Helso Ribeiro, essa transformação acelerou mudanças que já faziam parte da dinâmica eleitoral.
“Eu vejo que é indiscutível que as redes sociais, a internet, trouxeram um novo caminho de comunicação”, avaliou.
O cientista político observou que as eleições reúnem um número elevado de candidatos disputando vagas para os Legislativos estadual e federal. Nesse ambiente competitivo, sobrenomes conhecidos e trajetórias consolidadas não garantem, por si só, a conquista de um mandato.
Na avaliação do especialista, alguns políticos conseguem se adaptar às novas formas de comunicação, enquanto outros encontram dificuldades para acompanhar as mudanças no comportamento do eleitorado.
Helso também mencionou a renovação natural da vida pública. Segundo ele, uma das estimativas discutidas na ciência política considera que a trajetória eleitoral de um político pode durar aproximadamente 16 anos, ou quatro mandatos. Essa referência, contudo, não deve ser entendida como uma regra fixa, já que a permanência na política varia de acordo com cada trajetória.

A derrota eleitoral, portanto, pode representar tanto uma interrupção na carreira quanto uma etapa de transição. Há políticos que conseguem retornar em disputas posteriores, enquanto outros não voltam a conquistar cargos eletivos.
Ao comentar essa dinâmica, o especialista recorreu à conhecida música Como Nossos Pais, eternizada por Belchior:
“Mas é você que ama o passado e que não vê / Que o novo sempre vem”.
A referência resume a ideia de que a política está sujeita a mudanças e que a popularidade construída em eleições anteriores não assegura a continuidade do sucesso eleitoral.
Sucessão familiar
As eleições também colocaram em evidência os desafios enfrentados por grupos familiares que construíram influência política no Amazonas. Em alguns casos, o apoio de lideranças conhecidas funciona como um impulso para candidaturas de parentes. Em outros, o desgaste de uma figura central pode atingir os demais integrantes do grupo.
Entre os exemplos citados estão Luana Ferraz, esposa do prefeito de Iranduba, Augusto Ferraz, que disputou uma vaga na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), e Emanoel Pinheiro, vice-prefeito de Coari e filho de Adail Pinheiro, que também concorreu a uma cadeira no Legislativo estadual. Conforme o cenário apresentado, ambos não conseguiram se eleger.
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No caso de Luana Ferraz, a candidatura contou com o apoio político do marido, que participou da mobilização em torno do projeto eleitoral. Ainda assim, o apoio familiar não foi suficiente para garantir a conquista da vaga pretendida.
Já Emanoel Pinheiro chegou à disputa carregando o vínculo familiar com Adail Pinheiro, figura conhecida na política de Coari. O resultado demonstra que a associação com lideranças tradicionais não elimina os desafios enfrentados por candidatos que buscam conquistar votos próprios.

Para Helso Ribeiro, a influência familiar pode funcionar tanto como vantagem quanto como obstáculo.
“Catapulta e impulsiona uma candidatura de um descendente. O pai tem um grande sucesso e vai alavancar a candidatura do filho, e o inverso também acontece. Esse patriarcado político se desgasta e leva junto com ele todo o clã”, explicou.
O cientista político destacou que alguns integrantes de famílias tradicionais conseguem construir alianças próprias e desenvolver trajetórias independentes. Outros, porém, permanecem fortemente vinculados à imagem do principal líder do grupo.
No caso da família Pinheiro, por exemplo, o único que conseguiu se eleger foi Adail Filho no cargo de deputado federal.
“Quando a força eleitoral depende sobretudo de um sobrenome ou de uma estrutura familiar, o enfraquecimento da liderança central pode comprometer o desempenho dos demais candidatos”, explicou Helso.
A sucessão política, nesse sentido, exige mais do que a transmissão de influência entre gerações. A capacidade de construir uma identidade própria e estabelecer relações com diferentes segmentos do eleitorado também integra os desafios de quem busca manter uma família no cenário político.
Influenciadores
A presença de influenciadores digitais nas eleições foi outro aspecto desse cenário. No Amazonas, nomes conhecidos nas redes sociais, como Vivian Amorim, Caila Carim, Isabelly Aurora, Magrinha Elen e Leilane Oliveira, disputaram vagas nos Legislativos estadual e federal, mas não conseguiram conquistar os mandatos pretendidos.
As candidaturas evidenciam uma questão importante para a política contemporânea: ter visibilidade na internet não significa necessariamente transformar seguidores em votos.
As redes sociais permitem que candidatos divulguem propostas, apresentem suas trajetórias e estabeleçam contato direto com o público. Entretanto, o alcance digital representa apenas uma parte da disputa eleitoral, que também envolve organização de campanha, articulação política e capacidade de mobilização.

Helso Ribeiro ressaltou que a presença nas plataformas digitais não é uma garantia de sucesso eleitoral, sobretudo porque candidatos com estruturas financeiras e partidárias consolidadas também utilizam essas ferramentas para ampliar sua comunicação.
“É indiscutível que as redes sociais trouxeram uma nova forma de comunicação, mas está repleto também de influenciadores que usam essa ferramenta e não tiveram êxito”, afirmou.
Para o especialista, a visibilidade digital precisa ser compreendida dentro de um contexto mais amplo. Um influenciador pode alcançar milhares de pessoas na internet, mas isso não significa que todos os seguidores se transformarão em eleitores ou que haverá mobilização suficiente para conquistar uma vaga.
Além disso, candidatos tradicionais também passaram a investir nas redes sociais, disputando a atenção do mesmo público e utilizando estratégias digitais para fortalecer suas campanhas.
O resultado é um ambiente em que a popularidade na internet pode contribuir para a divulgação de uma candidatura, mas não substitui os demais elementos envolvidos na construção de uma campanha eleitoral competitiva.
Renovação política
A ausência de nomes conhecidos nas disputas eleitorais também abre espaço para uma reflexão sobre a continuidade das carreiras políticas. Uma derrota pode significar o fim de determinado projeto eleitoral, mas não necessariamente encerra a trajetória pública de uma liderança.
Helso Ribeiro observou que políticos com experiência em cargos majoritários também enfrentam derrotas ao longo da carreira. Em algumas situações, conseguem retornar em eleições posteriores; em outras, a perda de uma disputa representa uma ruptura mais duradoura.
Esse movimento reforça que a política não é estática. O poder econômico, as alianças partidárias, a influência familiar e a comunicação digital podem ajudar a construir candidaturas, mas seus efeitos variam conforme as circunstâncias de cada eleição.
No Amazonas, o desempenho dos políticos tradicionais, dos integrantes de famílias influentes e dos candidatos oriundos das redes sociais evidencia os diferentes desafios enfrentados por quem busca um mandato eletivo.
“A análise central é que experiência política, sobrenome conhecido e popularidade digital não são garantias isoladas de sucesso nas urnas. A combinação desses elementos com estruturas partidárias, recursos financeiros, capacidade de adaptação e apoio do eleitorado ajuda a explicar por que algumas candidaturas avançam enquanto outras ficam pelo caminho”, finalizou.

