Uma denúncia do morador Efraim Lagos revelou a falta de merenda escolar nas escolas do município de Manicoré, na gestão do prefeito Lúcio Flávio do Rosário (PSD), apesar de R$ 2.358.702,00 terem sido gastos apenas no início deste ano com a aquisição de gêneros alimentícios destinados à alimentação escolar. O valor, registrado na Ata de Registro de Preço nº 008/2026, refere-se a contratos com quatro empresas fornecedoras, mas as escolas continuam sem receber os produtos.
Em publicação em suas redes sociais, Efraim Lagos deixou claro que muitos alunos dependem da merende oferecida nas escolas para comer com qualidade, porém, há semanas a realidade não está sendo essa.
“Merenda escolar não é favor de político, não é luxo, é um direito das crianças. Enquanto muitos fazem discursos bonitos, na prática falta o básico. Quem sofre são os alunos, que muitas vezes dependem da merenda para se alimentar e conseguir aprender. Sem alimentação não existe aprendizado. Negar merenda é negar dignidade, é abandonar o futuro.”
No vídeo, Efraim relatou problemas na zona rural, onde não há combustível para transporte escolar.
“Semana passada viemos até a Secretaria de Educação para saber sobre a merenda escolar. Fomos informados que estaria tudo normal, mas foi mentira. Agora piorou, não tem merenda escolar nas escolas do município, tanto na zona urbana quanto na rural. Não tem transporte escolar, não tem gasolina para o transportador. A população precisa ser respeitada e o direito das crianças também.”
Moradores reagiram nas redes sociais, reforçando o descontentamento:
“Ele está reivindicando um direito do aluno. Cadê os recursos que vem para o município? Cadê o dinheiro da educação ”
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Quatro empresas, milhões em contratos e alimentos que não chegam
O dinheiro destinado à merenda foi distribuído entre quatro empresas fornecedoras, conforme a Ata de Registro de Preço nº 008/2026, publicada pela Prefeitura. Entre os alimentos comprados estão arroz, feijão, carne, frango, leite em pó, manteiga, macarrão, ovos, alho, açúcar, café, vinagre, colorau e bolacha.
Os contratos foram divididos assim:
- A. J. das Brandão Comercial Ltda – CNPJ 08.862.026/0001-50, Maués/AM
- Alho branco tipo extra (108 caixas) – R$ 29.030,40
- Milho branco para munguzá (120 fardos) – R$ 9.912,00
- Francisco Idomark Rabelo Damasceno – CNPJ 24.361.223/0001-42, Iranduba/AM
- Bolacha cream crack 400g (660 caixas) – R$ 65.670,00
- Café torrado e moído (84 fardos) – R$ 24.360,00
- Colorau colorífico (84 fardos) – R$ 10.752,00
- Feijão carioca (84 fardos) – R$ 17.514,00
- Pão francês ou hambúrguer (2.616 unidades) – R$ 51.012,00
- M A M de Castro Comércio Varejista de Produtos Alimentícios Ltda – CNPJ 10.212.168/0001-14, Manaus/AM
- Açúcar cristal (144 fardos) – R$ 18.720,00
- Arroz tipo agulhinha (204 fardos) – R$ 27.540,00
- Cebola (72 kg) – R$ 504,00
- Frango congelado (264 caixas) – R$ 65.208,00
- Leite integral em pó (468 fardos) – R$ 161.928,00
- Macarrão espaguete (456 fardos) – R$ 20.520,00
- Manteiga com sal (1.524 unidades) – R$ 36.576,00
- Óleo de soja (60 caixas) – R$ 9.780,00
- Ovo de galinha tipo extra (96 caixas) – R$ 21.984,00
- Vinagre (72 caixas) – R$ 1.933,20
- Y A da Rocha Comércio e Serviços – CNPJ 02.425.219/0001-68, Manaus/AM
- Carne bovina moída (16.644 kg) – R$ 748.980,00
- Carne bovina em cubos (20.808 kg) – R$ 1.018.592,00
- Leite desnatado em pó (816 pacotes) – R$ 15.495,84
- Sal marinho refinado (36 fardos) – R$ 1.690,56
Apesar de o gasto bilionário garantir toda a alimentação escolar, a população se queixa da ausência total de produtos nas escolas.
NOTA
O Núcleo de Reportagem Investigativa do Portal Alex Braga entrou em contato com a prefeitura de Manicoré que por meio de nota informou que o fornecimento de merenda escolar para as unidades de ensino no Distrito de Matupi estão regulares. Por e-mail, foram enviadas fotos de veículos com sacolas de alimentos e botijas de gás.
“Ademais, a referida ata nº 008/2026 está vinculada ao Pregão Eletrônico nº 010/2026 cujo objeto é eventual aquisição de gêneros alimentícios destinados a merenda escolar para as escolas do Distrito de Santo Antônio do Matupi, entretanto, o pregão mencionado não está sendo executado, pois não houve nenhum contrato nesse pregão até o presente o momento. Por fim, informamos que a municipalidade possui um contrato em vigência para fornecimento de merenda escolar que está sendo utilizado para realizar a aquisição e entrega da merenda escolar nas unidades de ensino localizadas no Distrito de Santo Antônio do Matupi. Sem mais para o momento, nos colocamos à disposição para prestar as informações necessárias para elucidação dos fatos”, diz a nota.
Só que, diante de tudo isso, a resposta da prefeitura soa mais como deboche do que esclarecimento. Em vez de explicar de forma convincente onde estão os milhões gastos, a gestão do prefeito parece achar que enviar fotos de uma pick-up suja, com algumas sacolas que mais parecem macaxeira, ovos e uma botija de gás, é prova suficiente de que há merenda nas escolas. Tratar uma situação séria como essa dessa forma é, no mínimo, brincar com a inteligência da população e, pior, com a fome e o direito básico dos alunos.
A reportagem também entrou em contato com as quatro empresas licitadas, porém apenas a empresa M A M de Castro Comércio Varejista de Produtos Alimentícios Ltda respondeu dizendo que “Até a presente data, não foi firmado contrato, referente a merenda escolar, ou seja, não foi solicitado ou entregue nenhuma demanda!”.
