Sexta-feira, 6 Fevereiro

Mesmo sem médico de plantão e com o único hospital do município operando sem aparelho de raio-x, a Prefeitura de Iranduba, comandada pelo prefeito Augusto Ferraz (UB), autorizou um gasto milionário de R$ 3.495.803,67 na compra de materiais odontológicos e hospitalares. O contrato foi assinado pela Secretaria Municipal de Saúde, comandada pela primeira-dama Luana Ferraz, e publicado no Diário Oficial dos Municípios do Amazonas, levantando questionamentos sobre prioridades e transparência na aplicação dos recursos públicos, uma vez que não se tem informações para onde os itens serão destinados.

Enquanto pacientes aguardam atendimento em corredores lotados e denunciam a ausência de profissionais no Hospital Regional Hilda Freire, a administração municipal formalizou um robusto registro de preços que inclui desde resinas compostas nanoparticuladas e cimentos odontológicos de alto custo até kits educativos e materiais de consumo básico.

O levantamento, publicado no Diário Oficial em 2 de fevereiro de 2026, revela uma extensa lista de itens, com quantidades elevadas e valores unitários que chegam a ultrapassar R$ 179. Entre os produtos adquiridos estão resinas 100% nanoparticuladas (A1, A2, A3 e A3.5), limas endodônticas manuais e rotatórias, brocas diamantadas, cones de guta-percha e cimentos especializados como o MTA Repair HP.

Além dos insumos clínicos, a compra milionária também contempla materiais comuns, como luvas cirúrgicas, luvas para lavagem de instrumental, tiras de lixa, papel filme, fio dental e kits educativos com macromodelos para treinamento de escovação dentária e demonstração de doenças periodontais.

O registro de preços inclui empresas de diferentes portes, como A.R. Rodriguez & Cia LTDA, Decares Comércio LTDA, Maquira Indústria de Produtos Odontológicos S.A., Nova Olinda Produtos Hospitalares e RR Comércio de Produtos Farmacêuticos e Hospitalares LTDA, que fornecerão os materiais em um prazo definido pelo órgão gestor.

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Hospital sem estrutura e denúncias de calamidade

O gasto milionário contrasta com a realidade enfrentada pela população. Moradores denunciam filas constantes, falta de médicos e a inexistência de um aparelho de raio-x em funcionamento no Hospital Regional Hilda Freire, o único do município, localizado a 38 quilômetros de Manaus.

Na última terça-feira (20), um morador de Iranduba expôs a situação em vídeo gravado dentro da unidade. Ao levar uma colega de trabalho vítima de acidente, ele classificou o cenário como uma “calamidade pública”.

“A gente veio trazer uma colega de trabalho que sofreu acidente e não encontra médico aqui. Pessoas passando mal, casos de urgência e emergência, e olha essa situação”, relatou no vídeo.

No vídeo, o denunciante cobra diretamente o prefeito e a secretária de Saúde.

“Os vereadores não estão aqui. A gente não sabe mais a quem pedir socorro. A secretária de Saúde precisa olhar com atenção para isso, assim como o prefeito”, afirmou.

Orçamento recorde, problemas básicos

As denúncias ganham ainda mais peso diante dos números oficiais. O orçamento global de Iranduba saltou de R$ 162,3 milhões em 2023 para mais de R$ 350,1 milhões em 2026, um crescimento superior a 115% em quatro anos.

Somente a área da saúde mais que dobrou no período. A Secretaria Municipal de Saúde saiu de R$ 34 milhões em 2023 para R$ 68,2 milhões previstos para 2026, além de créditos suplementares e emendas parlamentares que reforçaram o caixa do Fundo Municipal de Saúde.

Mesmo assim, usuários da rede pública seguem relatando falta de equipamentos, medicamentos, profissionais e estrutura mínima para atendimento de urgência e emergência.

NOTA

O Núcleo de Reportagem Investigativa do Portal Alex Braga entrou em contato com a prefeitura de Iranduba para falar sobre o assunto, mas até a publicação desta matéria não obtivemos respostas. O espaço segue aberto para esclarecimentos.

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