Sexta-feira, 2 Janeiro

À medida que 2026 se aproxima, o tabuleiro político do Amazonas começa a se reorganizar, especialmente no interior do estado. O ano de 2025 foi marcado por denúncias, contratos milionários, nomeações controversas e a permanência de velhos grupos no comando das prefeituras. Em Manacapuru, Coari, Manaquiri e Iranduba, os bastidores revelam que ex-prefeitos e famílias tradicionais seguem ditando os rumos da administração pública e já articulam alianças para a próxima eleição geral.

Um levantamento do Portal Alex Braga mostra que, longe de renovação política, o que se consolida é a repetição de práticas antigas, com forte uso da máquina pública para manutenção de poder.

Manacapuru: Valciléia Maciel e a sombra de Beto D’Ângelo

A prefeita Valciléia Maciel (MDB) assumiu Manacapuru com a herança política do ex-prefeito Beto D’Ângelo, seu padrinho político. Em 2025, contratos milionários e nomeações polêmicas marcaram sua gestão.

Desde o primeiro mês de gestão, contratos milionários com empresas ligadas a antigos aliados foram renovados, e aditivos que ultrapassaram R$ 33 milhões continuam a ser pagos. A recondução de ex-servidores investigados e a manutenção de privilégios herdados da gestão anterior levantam a pergunta: quem realmente governa a cidade?

Nos bastidores, o cenário indica que Valciléia seguirá apoiando Beto D’Ângelo em sua possível candidatura a deputado federal, garantindo influência na região do Baixo Solimões.

Coari: Adail Pinheiro e a máquina da família

Em Coari, o poder segue concentrado há mais de duas décadas nas mãos da família Pinheiro. O prefeito Adail Pinheiro, ao lado do ex-prefeito Keitton Pinheiro e da deputada estadual Mayara Pinheiro, assinou em 2025 contratos milionários com empresas sob suspeita, muitas delas responsáveis por obras que permanecem inacabadas, como escolas e unidades de saúde.

Apesar das denúncias e atrasos, o grupo mantém total controle da máquina pública e já se movimenta para ampliar sua força política nas eleições de 2026, deixando claro que não pretende abrir espaço para adversários.

Manaquiri: Nelson Nilo e o ex-prefeito que nunca saiu do poder

Já em Manaquiri, o prefeito Nelson Nilo (MDB) enfrenta um dilema: governar sob a sombra do ex-prefeito Jair Souto, que se prepara para disputar uma vaga de deputado nas próximas eleições. Durante 2025, contratos milionários para reformas do Centro Cultural e da Praça São Pedro permaneceram paralisados, enquanto familiares de Souto assumiram cargos estratégicos nas secretarias de Fazenda e Educação.

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A cidade segue como terreno fértil para a base política de Souto, com Nelson Nilo garantindo que a influência do ex-prefeito permaneça intacta.

Iranduba: Augusto Ferraz entre riqueza e crise

Em Iranduba, o prefeito Augusto Ferraz (União Brasil) encerrou 2025 sob questionamentos. Enquanto seu patrimônio pessoal aumentou cerca de 22%, o município enfrenta graves problemas estruturais e ambientais. Obras públicas permanecem inacabadas, estradas vicinais seguem deterioradas e o lixão a céu aberto continua funcionando, afetando comunidades rurais.

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A cassação de três vereadores aliados por fraude eleitoral enfraqueceu sua base política, mas Ferraz ainda desponta como figura central. Seu apoio será decisivo para candidaturas locais e estaduais em 2026.

De olho em 2026: velhas alianças e o peso do dinheiro público

O balanço de 2025 deixa claro que o poder político no interior do Amazonas continua concentrado em grupos familiares, ex-prefeitos e alianças antigas. Em Manacapuru, Coari e Manaquiri, contratos, cargos e nomeações desenham o mapa das futuras alianças eleitorais. Em Iranduba, a crise política e ambiental caminha lado a lado com o enriquecimento do chefe do Executivo.

A eleição de 2026, portanto, não será apenas uma disputa por votos, mas uma batalha pelo controle das estruturas de poder local. E, ao que tudo indica, essas estruturas seguem firmemente nas mesmas mãos.

Para o cientista político Helso Ribeiro, esse cenário não é uma exceção regional, mas parte de uma lógica histórica da política brasileira.

“O Brasil nunca teve uma tradição democrática sólida. O que vivemos desde 1985, 1986, é talvez o maior lapso da nossa história de tentativa de democracia”, afirma.

Segundo ele, esse processo democrático se desenvolveu de forma desigual e carregado de distorções estruturais.

“Essa democracia veio, diferente de outros lugares, repleta de vícios, entre eles a plutocracia, ou seja, governa quem tem dinheiro, e as oligarquias, que são grandes grupos que tentam se manter no poder a todo custo”, explica.

Ribeiro destaca que essa dinâmica se reproduz em todas as esferas do poder.

“Isso acontece não só na esfera federal, mas em cada rincão do país, nas mais de 5.600 prefeituras, nos 26 estados e no Distrito Federal. Grupos oligárquicos, que normalmente detêm o poder monetário, acabam dominando”, diz.

No Amazonas, o padrão histórico se mantém.

“O Amazonas não é exceção. Se a gente observar a história do estado, com poucas exceções, os governantes sempre vieram de grupos que, de certa forma, formam oligarquias”, analisa.

De acordo com o cientista político, essas oligarquias alternam entre rivalidade e cooperação conforme a conveniência eleitoral.

“Às vezes fazem oposição umas às outras, mas quando é conveniente, se unem para manter o poder”, afirma.

Ele também chama atenção para atores políticos que, mesmo fora do Executivo, se beneficiam diretamente das estruturas governamentais.

“Há grupos que não importam qual seja o governo. Eles não estão necessariamente no Executivo, mas se servem dele para obter penduricalhos: cargos em secretarias, nomeações estratégicas, às vezes até fora da cidade. Essa manutenção constante é uma marca da política amazonense e brasileira”, conclui.

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