A denúncia de discriminação política envolvendo a professora Helma Sampaio e a médica Marilene Maia Rios, durante um atendimento na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) José Rodrigues, em Manaus, reacendeu o debate sobre os limites da divergência ideológica e o respeito às opiniões políticas. O caso ocorreu no dia 26 de outubro, um dia após o segundo turno das eleições presidenciais, e foi comentado pelo cientista político Helso Ribeiro, em entrevista ao Núcleo de Jornalismo Investigativo do Portal Alex Braga (PAB).
O episódio aconteceu em meio a manifestações nas redes sociais relacionadas ao resultado das eleições, com usuários declarando que deixariam de consumir produtos ou contratar serviços de pessoas com posicionamentos políticos contrários aos seus. Também houve manifestações de empresários que afirmaram que deixariam de realizar ações filantrópicas, sob a alegação de que parte das pessoas beneficiadas seria alinhada à esquerda.
Nesse cenário de polarização, a denúncia feita por Helma levantou questionamentos sobre a possibilidade de divergências políticas influenciarem a prestação de serviços, especialmente em áreas essenciais, como a saúde.
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Preconceito e intolerância política
Durante a entrevista ao PAB, Helso Ribeiro explicou que preconceito e intolerância política são comportamentos relacionados à dificuldade de aceitar opiniões divergentes, mas que apresentam diferenças na forma como se manifestam.
“Normalmente, ou nem sempre, um é externalizado. Significa, vamos lá, eu tenho um preconceito, um conceito preconcebido, né? Com quem defende a questão ambiental, pronto. Então, a pessoa defende a questão ambiental e eu já não gosto. A intolerância normalmente é externalizada, né?”, explicou.
Segundo o cientista político, o preconceito está relacionado à formação de uma ideia preconcebida sobre determinada pessoa ou grupo, enquanto a intolerância se manifesta por meio de atitudes que expressam essa rejeição. Entre os exemplos estão a exclusão social, o constrangimento e a imposição de obstáculos ao desenvolvimento profissional de alguém por causa de suas convicções.
“Os dois estão baseados na falta de transigência de quem pratica o preconceito ou a intolerância, ele não consegue conviver com uma opinião que é contrária a ele ou a bolha dele”, afirmou Ribeiro.
O especialista destacou que a dificuldade de conviver com pensamentos diferentes pode levar a comportamentos discriminatórios, sobretudo quando as divergências ultrapassam o campo das opiniões e passam a interferir na forma como uma pessoa é tratada.
No caso denunciado em Manaus, a eventual caracterização de preconceito ou intolerância política dependerá da apuração dos fatos e das circunstâncias do atendimento.
Entenda o caso
Após o episódio, Helma informou que registrou um boletim de ocorrência. Na mesma semana, Segundo o relato da professora Helma Sampaio, coordenadora administrativa do Sindicato dos Professores e Pedagogos de Manaus, ela procurou atendimento na UPA José Rodrigues após apresentar alteração na pressão arterial. Durante a consulta, comentou que estava ansiosa em razão das eleições presidenciais.
De acordo com a denúncia, a médica teria perguntado em quem a paciente havia votado. Após Helma responder que escolheu Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a profissional teria feito comentários considerados hostis pela professora.
A situação teria se agravado quando Helma questionou se a médica daria continuidade ao atendimento. Conforme o relato da paciente, a profissional respondeu de maneira irônica que era faxineira e, posteriormente, acusou Helma de tê-la chamado dessa forma.
Ainda segundo a professora, a médica teria ameaçado quebrar seu celular ao perceber que estava sendo fotografada. Helma afirma que o episódio provocou tremores e uma nova alteração na pressão arterial, agravando seu estado de saúde. Posteriormente, ela foi atendida por outra profissional.
Após o episódio, Helma informou que registrou um boletim de ocorrência. Na mesma semana, retornou à unidade de saúde para formalizar a denúncia junto à Ouvidoria, mas, segundo ela, não conseguiu atendimento presencial.
“O cidadão que procura uma unidade de emergência é porque está precisando, e todo cidadão tem que ser bem tratado”, declarou a professora.
Médica nega acusação
A médica Marilene Maia Rios contesta a versão apresentada pela professora e nega que tenha condicionado o atendimento à preferência política da paciente.
Segundo a profissional, Helma chegou à unidade após apresentar alteração na pressão arterial e relatou estar nervosa com o resultado das eleições. Marilene afirma que procurou entender o que poderia ter provocado a alteração clínica e perguntou em quem a paciente havia votado.
De acordo com a versão da médica, após ouvir que Helma havia escolhido Lula, ela tentou tranquilizá-la, comentando que a professora deveria estar feliz com a vitória de seu candidato.
Marilene relata que, após a conversa, Helma teria se levantado, demonstrado revolta e afirmado que queria ser atendida por uma médica de verdade. A profissional sustenta que houve um desentendimento durante a consulta, mas nega ter praticado discriminação política.
Afastamento
Em nota divulgada na dia 27 de outubro, a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou que a médica será temporariamente afastada de suas funções até a conclusão da apuração e da avaliação de sua conduta.
A secretaria declarou que não compactua com comportamentos contrários aos princípios éticos que devem orientar o atendimento aos pacientes. A pasta também recomendou que a denúncia fosse formalizada junto à Ouvidoria do Estado.
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Segundo a SES-AM, o afastamento tem caráter administrativo preventivo e não representa uma conclusão sobre as acusações apresentadas pela professora.
A apuração deverá esclarecer as circunstâncias do episódio e verificar a conduta da profissional durante o atendimento.
Investigação
Ao comentar o caso, Helso Ribeiro ressaltou que a dificuldade de aceitar opiniões contrárias pode resultar em atitudes que ultrapassam a simples divergência ideológica. O episódio, portanto, amplia a discussão sobre os efeitos da polarização política nas relações sociais e no acesso a serviços essenciais.
“Em unidades públicas de saúde, o atendimento deve observar os princípios de dignidade, respeito e igualdade, sem distinção baseada nas preferências eleitorais dos pacientes. A avaliação sobre a conduta da médica, entretanto, depende da apuração administrativa e dos demais procedimentos cabíveis”, destacou Helso.
A investigação deverá esclarecer as circunstâncias do atendimento na UPA José Rodrigues e verificar as versões apresentadas pela professora e pela médica. Até a conclusão da apuração, a denúncia de discriminação política permanece sob análise.
