Em 2025, a Prefeitura de Eirunepé, comandada pela prefeita Áurea Marques (MDB), autorizou R$ 8.150.012,28 em gastos com pavimentação por meio de contratos e pregões oficiais. No entanto, longe dos despachos, homologações e extratos publicados, o que moradores mostram em vídeos é um município onde ruas não existem na prática, ambulâncias não conseguem entrar, idosos precisam ser carregados na lama e a população improvisa sacolas nos pés para conseguir caminhar. O contraste entre o dinheiro público gasto e a realidade das ruas transformou-se em denúncia aberta contra a gestão municipal.
Na Rua 3 do Conjunto Armando Mendes, no bairro de Fátima, o abandono chegou ao ponto da indignação. Em um dos vídeos, moradores plantaram uma bananeira dentro de uma área de lama aberta no meio da via, como forma de protesto. A cena resume a ausência total de infraestrutura.
“Isso aqui parece um sítio, mas não é. Essa bananeira foi plantada pelos moradores porque não existe rua aqui. Isso mostra o quão lamentável é essa situação. Aqui não entra ambulância, não entra polícia, não entra nem entregador”, afirma um morador, enquanto aponta para o buraco tomado pelo barro.
Outro vídeo, ainda mais grave, mostra a mesma rua completamente tomada pela lama. Sem condições de tráfego, moradores aparecem carregando um idoso em uma maca, numa cena que expõe o risco direto à vida causado pela falta de pavimentação. Não se trata apenas de desconforto urbano, mas de violação do direito básico de ir e vir e de acesso a serviços essenciais.
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No Ramal São Francisco, a precariedade ganha contornos de humilhação cotidiana. Um morador grava o próprio trajeto usando sacolas plásticas nos pés para evitar atolar no barro. “Olha a situação que ele tem que enfrentar. Ele usa sacolas pra enfrentar essa lama toda aqui no Ramal São Francisco”, diz a narração do vídeo. O improviso escancara o abismo entre o que é anunciado nos contratos públicos e o que é entregue à população.
As imagens viralizaram e provocaram revolta nas redes sociais. Um comentário resume a indignação popular ao ironizar a administração municipal: “Gestão do amor. Ela só vai fazer o que o povo gosta”.
“Enquanto milhões são gastos, moradores afundam na lama
Enquanto os moradores enfrentam lama e isolamento, os documentos oficiais da Prefeitura revelam um volume expressivo de recursos destinados à pavimentação em 2025. Três contratos foram firmados com a empresa LSB Serviços Transportes e Comércio de Materiais de Construção Ltda., CNPJ 21.617.193/0001-02, totalizando R$ 5.150.012,28. Os contratos abrangem serviços de pavimentação em estradas vicinais e recuperação de vias públicas e foram homologados e assinados durante a gestão da prefeita Áurea Marques.
O maior deles, o Contrato nº 133/2025, no valor de R$ 3.362.052,32, prevê a pavimentação de estrada vicinal vinculada ao Convênio nº 943491/2023. O Contrato nº 125/2025, de R$ 1.364.372,39, refere-se a serviços semelhantes ligados ao Convênio nº 045218/2023. Já o Contrato nº 122/2025, no valor de R$ 423.587,57, trata da recuperação de vias públicas, incluindo tapa-buracos, galerias, calçadas, sarjetas e meio-fio.
Além desses contratos, há ainda o Pregão Eletrônico nº 011/2025, que destinou R$ 3 milhões para asfaltamento à empresa Yem Serviços Técnicos e Construções Ltda.. O pregão é alvo de investigação do Tribunal de Contas do Estado do Amazonas (TCE-AM) por indícios de fraude e favorecimento, incluindo a entrega de materiais antes da conclusão do processo licitatório, conforme já divulgado.
Somados, os contratos e o pregão elevam para R$ 8,15 milhões os recursos destinados à pavimentação em Eirunepé em 2025. Ainda assim, os vídeos revelam uma cidade onde o asfalto não chega, a lama domina e a população precisa se virar sozinha para sobreviver ao abandono.
NOTA
O Núcleo de Reportagem Investigativa do Portal Alex Braga entrou em contato com a prefeitura de Eirunepé para falar sobre o caso, mas até a publicação desta matéria não obtivemos respostas. O espaço segue aberto para esclarecimentos.
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